ESPÍRITO DA TERRA - AVENTURA E AÇÃO

O PASSADO ESTÁ NAS PAREDES (E DEBAIXO D'ÁGUA)

Vestígios de indígenas primitivos e fósseis em cavernas brasileiras começam a ser mais estudados, mas ainda faltam especialistas

            

Os pequenos desenhos geométricos ou representações "infantis" de homens e animais, nas paredes de entrada das cavernas, podem ser confundidos com grafites atuais por visitantes mais distraídos, mas são verdadeiras páginas de Pré-História, algumas com 20 mil anos de idade. Eles foram feitos por homens primitivos, que se abrigavam temporariamente na entrada das cavernas, durante suas migrações em busca de caça ou para se proteger do mau tempo. Alguns desses homens chegaram a se aventurar nas áreas mais escuras das cavernas, como demonstram registros mais raros, porém a grande maioria se restringia à parte iluminada naturalmente. Por falta de arqueólogos dedicados a estudos em cavernas brasileiras, muitas dessas páginas de Pré-História continuam sendo descobertas por moradores locais ou visitantes ocasionais, dependendo de seu bom senso para permanecerem intactas. Os sítios arqueológicos e paleontológicos são legalmente protegidos desde os anos 60, por uma lei assinada pelo então presidente Jânio Quadros. Mas a lei nem sempre alcança os esconderijos da arte rupestre. Alguns grupos de pesquisadores das universidades de São Paulo (USP), Federal de Minas Gerais (UFMG), Federal de Pernambuco (UFPE) e Museu Goeldi, entre outros, têm investido bastante na formação de especialistas e na exploração dos sítios arqueológicos conhecidos, mas ainda existem mais cavernas do que equipes para estudá-las. As principais concentrações de abrigos "decorados" encontram-se nos Parques Nacionais da Serra da Capivara e Sete Cidades, no Piauí; no Vale do Peruaçu; na Serra do Lajeado, no Tocantins; na Chapada Diamantina, na Bahia, e no Vale do Ribeira, em São Paulo. A datação dos registros varia dos 20 mil anos até a época do Descobrimento, sendo possível identificar diversas ondas de migração pelo tipo de desenho deixado nas paredes. "Um dos registros mais impressionantes é o desenho de um tamanduá na Toca do Índio, no Vale do Peruaçu", conta Washington Simões, secretário da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE) e membro da Comissão de Arqueologia da União Internacional de Espeleologia (UIE). O desenho é um dos poucos encontrados fora da área iluminada naturalmente, bem no interior da caverna, e provavelmente ficou para atestar para a posteridade a coragem de seu autor. Vem sendo estudado pela equipe do francês André Braus, da UFMG, que há cerca de 20 anos se dedica à arqueologia em cavernas. Simões destaca também a ocorrência de algumas representações astronômicas, em abrigos da Chapada Diamantina, estudadas pela arqueóloga Maria Conceição Beltrão e pelo astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. Os desenhos, com data provável de 8 mil anos, reproduzem algumas constelações, que deveriam orientar (ou apenas fascinar) os homens primitivos. Fósseis intactos As cavernas ainda abrigam fósseis importantes, sobretudo do Pleistoceno, período entre 50 e 15 mil anos atrás, quando viveram no Brasil mamíferos gigantes como as preguiças terrícolas, megatérios e tigres de dentes de sabre. Muitos desses fósseis, extremamente bem preservados, têm sido encontrados durante a exploração subaquática das cavernas, atividade muito recente e crescente no Brasil. "São animais que permaneceram dentro de uma água fria e calma, com grande concentração de cálcio, tendo se fossilizado com muita perfeição debaixo d'água", explica Washington Simões. Além de tudo, não precisam ser escavados, tendo se transformado nos principais objetos de estudos de equipes como a do galego Cástor Cartelli, também da UFMG, atualmente trabalhando sobre preguiças terrícolas encontradas em Bonito e Jardim, no Mato Grosso do Sul. "Vale lembrar aos visitantes de cavernas brasileiras, já que este tipo de turismo vem aumentando, que é extremamente importante para a preservação do nosso patrimônio arqueológico e paleontológico, a comunicação de qualquer tipo de achado parecido com uma pintura rupestre ou um fóssil", acrescenta ainda Simões. "Basta avisar uma universidade, secretaria de educação, a SBE ou o Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Cecav-Ibama), que nós temos como encaminhar a descoberta a grupos especializados".

                                                                                                                                             Liana John
                                                                                                                                     O Estado de São Paulo

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