ESPÍRITO DA TERRA - AVENTURA E AÇÃO

NOVAS LEIS E CONCEITOS AJUDAM A PRESERVAR CAVERNAS

Educação ambiental para os visitantes e novas leis e normas para planos de manejo querem proteger patrimônio espeleológico

            O Brasil tem 2.700 cavernas catalogadas, concentradas no Distrito Federal, Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, São Paulo e Paraná. Estima-se, porém, que isso corresponda a menos de 10% do número total de cavernas existentes no país, já que, desde 1985, cerca de 100 novas cavidades são descobertas a cada ano. Os especialistas em exploração - os espeleólogos - ainda são muito poucos para dar conta de todas as novas descobertas e também faltam recursos materiais para fazer este trabalho.

Diversas organizações não-governamentais - a maioria afiliada à Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE) - suprem esta carência, como parceiras fundamentais dos órgãos de governo, seja na descoberta e estudo das cavernas, seja na formação de guias especializados para atender os visitantes e na elaboração de normas de uso adequadas a cada tipo de cavidade.

Do lado do governo, algumas medidas para proteger e manejar adequadamente o turismo vem sendo tomadas. Desde a elaboração da Constituição de 1988, por exemplo, as cavernas passaram a ser consideradas Patrimônio da União e tanto seu uso turístico, como as minerações e outras atividades econômicas potencialmente impactantes têm de obter licença ambiental. Antes disso, elas eram consideradas um bem mineral e a licença era avaliada apenas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), o que resultou na perda irreparável de algumas cavernas belíssimas, como as que possuíam raros ornamentos azuis, no Vale do Alto Ribeira, em São Paulo.

Para cuidar do licenciamento das cavernas e da educação ambiental de seus visitantes, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também criou um Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas (Cecav), com nova sede, em Brasília, desde fevereiro deste ano. O Cecav vem trabalhando principalmente com a proteção das cavernas brasileiras contra a depredação, o turismo mal planejado, minerações e desmatamentos no entorno (que afetam, sobretudo, os cursos d'água, formadores das cavernas).

Como são ambientes muito específicos, com uma fauna única e condições de temperatura e umidade muito constantes, as cavernas precisam de regras especiais de uso e proteção. Problemas aparentemente menores, como o excesso de visitantes podem ser muito destrutivos, seja pelo pisoteio ou depredação de espeleotemas (formações calcárias ou cristalinas típicas) seja pelo excesso de gás carbônico, proveniente da respiração dos turistas.

O turismo em cavernas é uma opção de desenvolvimento sustentável que atrai muitas destas comunidades. Mas a regulamentação desse turismo ainda tem muitas arestas a serem aparadas entre espeleólogos, agentes de viagens e os diversos tipos de turistas: os aventureiros, dispostos a fazer rapel, canyoning, mergulho ou escaladas radicais; os religiosos, que realizam cerimônias dentro das cavernas e os turistas tradicionais, que muitas vezes deixam um rastro de lixo e depredações ao longo dos caminhos que percorrem.

"As cavernas também tem uma função ambiental, freqüentemente esquecida, que é a recarga de aqüíferos". "Elas são galerias cavadas pela água e de sua preservação dependem muitos mananciais". Abrigam, ainda, importantes sítios paleontológicos e arqueológicos, com pinturas rupestres, fósseis e vestígios de ocupação humana, em ótimas condições de conservação, justamente devido à estabilidade do ambiente. Não são raras as descobertas, em seu interior, de esqueletos inteiros, sobretudo dos grandes mamíferos - Megatérios, Toxodontes, Gliptodontes - do período Pleistocênico (10 mil a 1 milhão de anos atrás).

                                                                                                                                        Liana John
                                                                                                                               O Estado de São Paulo

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